quinta-feira, 21 de setembro de 2017

21 de Setembro de 1558: Morre Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico

Monarca da família dos Habsburgos, foi imperador do Sacro Império Romano-Germânico (como Carlos V) e rei de Espanha (como Carlos I). Nasceu em Gand a 24 de Fevereiro de 1500, filho de Filipe, duque da Borgonha, senhor da Flandres e arquiduque da Áustria. Herdou do seu pai os Países Baixos e o Franco Condado. Quando, em 1516, morre Fernando de Aragão, o seu neto Carlos (V) torna-se Carlos I de Espanha. Devido à incapacidade de reinar de Joana, a Louca, sua mãe e filha dos Reis Católicos, Carlos tomou posse de Castela e suas dependências na América, de Aragão, do reino de Napóles e da Sicília, para além de portos-chave no Norte de África (Trípoli, Oran, Bougie)
Em 1519, é eleito Imperador Germânico, ganhando a Francisco I, que chegou a fazer prisioneiro, e a Carlos de Espanha. Teve depois que dominar inúmeras revoltas no interior dos seus vastos Estados (os comunerosem Castela, 1520-22; o povo de Gand, 1539-40; os príncipes alemães protestantes, 1546-1555), para além de estar constantemente em guerra com a França de Francisco I e contra o avanço do Império Otomano.

Devido à dimensões do seu império, Carlos V foi um soberano itinerante: quando abdica, em Bruxelas, em Outubro de 1555, afirma que, no seu reinado, fizera 9 viagens à Alemanha, 16 a Espanha, 4 a França, 2 a África, 2 a Inglaterra, 7 a Itália e 10 aos Países Baixos.Vários foram os seus êxitos maiores para a construção da sua monarquia imperial: vitória de Pavia, em 1525, que lhe rende o Milanês (região de Milão), em detrimento da França; eleição do seu irmão Fernando como rei da Boémia e da Hungria, em 1526 (a quem, aliás, a partir de 1522, cedia o governo dos territórios austríacos e dos legados Habsburgos); conquista de Tunes, em 1535; vitória de Mühlberg, em 1547, que ataca em cheio a liga protestante alemã; por último, a mais importante, a conquista de imensos territórios na América. Aqui, residia a força e o poder universal de Carlos V, baseados não no título imperial, mas no facto de ser senhor efectivo de importantes territórios exteriores ao Império Germânico. Há, no fundo, um império dito de Carlos V, o "Império onde o sol nunca se punha".Na América, base do Siglo de orode Espanha e das riquezas do séc.XVI, Carlos V criou os vice-reinos do México (1535) e de Lima (1542). No seu reinado, os Espanhóis exploram o Panamá (1513) e atingem o Iucatão. Fernão de Magalhães e Del Cano circum-navegam o Mundo. Conquistam o Império Inca a partir de 1524; atingem a Florida (1528), Buenos Aires e o Mississípi (1538). Coronado chega à Califórnia (1539). Em 1545 abrem-se as Minas de Potosí (Bolívia), um dos pilares da economia de Carlos V.

Teve 3 derrotas no seu império: não recuperou a Borgonha à França; não destruiu o Império Otomano; não reconstituiu a unidade católica na Alemanha.Senhor de grande parte da Europa e de quase toda a América, possuidor de intermináveis riquezas, abdicou em 1555 do senhorio da Borgonha para Filipe II (seu filho e de D. Isabel de Portugal, com quem teve também D. Joana, mãe de D. Sebastião) e, em 1556, também lhe a coroa espanhola e suas dependências. No mesmo ano, entregou a Fernando a coroa imperial e retirou-se para o mosteiro jerónimo de Yuste, onde morreu a 21 de Setembro de 1558, depois de ter construído o maior império da Terra.
 

Carlos V. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia (Imagens)
Retrato de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano Germânico
File:Emperor charles v.png
O Imperador Carlos V por Juan Pantoja de la Cruz, cópia de um retrato de Ticiano
Arquivo: Empire of Charles V.png
Os domínios de Carlos V

21 de Setembro de 1761: O jesuíta Gabriel Malagrida é executado, no último auto de fé, com condenação à morte, realizado em Lisboa.

Gabriel Malagrida foi um jesuíta italiano, nascido na vila de Managgio, a 18 de Setembro de 1689.
Desde criança deu provas de engenho e ao mesmo tempo duma tendência exagerada para o misticismo. Depois de completar em Milão os seus estudos entrou na Companhia de Jesus, em Génova, a 27 de Setembro de 1711.
Resolvendo dedicar-se às missões, saiu de Génova em 1721, seguindo para o Maranhão, onde os seus superiores o designaram para pregar, sendo depois nomeado em 11 de Outubro de 1723 pregador do colégio do Pará, e ali o encarregaram dos alunos. Não cessava, contudo, de missionar na cidade e nas aldeias circunvizinhas, até que lhe ordenaram que voltasse ao Maranhão, sendo desde logo escolhido para reitor da missão dos Tobajáras. Na narrativa das suas missões não  falava senão em vozes misteriosas que o avisavam; tudo são milagres e prodígios. Malagrida julgava-se favorito do céu. Em 1727, por ordem dos superiores, voltou ao Maranhão para reger no colégio dos jesuítas a cadeira de belas letras, mas logo em 1728 voltou a catequizar os índios. Em 1735 começou a missionar entre os colonos, seguindo do Maranhão para a Baía, e dali a Pernambuco, voltando enfim ao Maranhão. Durante 14 anos, até 1749, conservou-se nestas missões granjeando neste tempo a fama de taumaturgo, e a denominação de apóstolo do Brasil. Em 1749 veio para a Europa, com a fama de santo, vindo tratar de arranjar dotações para os vários conventos e seminários que fundara. Em Lisboa foi acolhido como santo, e a imagem, que trazia consigo, foi conduzida em procissão para a igreja do colégio de Santo Antão. D. João V, nessa época, estava muito doente, e acolheu de braços abertos o santo jesuíta, fez-lhe todas as concessões que ele desejava, e chamou-o para junto de si na hora extrema. Foi Gabriel Malagrida quem assistiu aos últimos momentos do monarca. Em 1751 voltou ao Brasil, mas não foi bem recebido no Pará, onde governava então o irmão do Marquês de Pombal. Até 1754  Malagrida esteve no Maranhão missionando entre os cristãos.
Em 1751 voltou a Lisboa, por ser chamado pela rainha, viúva de D. João V, D. Maria Ana da Áustria e encontrou no poder o Marquês de Pombal. O Marquês que se propusera a “regenerar Portugal”, livrando-o da tutela dos jesuítas, não podia simpatizar com o taumaturgo. Não o deixando entrar na intimidade da rainha viúva, Malagrida partiu para Setúbal, onde depois teve a notícia da morte da soberana. O Marquês de Pombal não se importou com aquele jesuíta santo, enquanto as suas "santidades" não contrariavam os seus projectos, mas o conflito era inevitável. Aquando do terramoto de 1755,  Malagrida estava em Lisboa. Aquela catástrofe ocasionou um terror imenso na população da capital, e um dos grandes empenhos do Marquês de Pombal era levantar os espíritos abatidos. Para isso mandou compor e publicar um folheto escrito por um padre, em que se explicavam as causas naturais dos terramotos, e se desviava a crença desanimadora de que fora castigo de Deus, e de que eram indispensáveis a penitência e a compunção. Saiu a campo indignado o padre Malagrida escrevendo um folheto intitulado:Juizo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a corte de Lisboa no 1.º de Novembro de 1755. Nesse folheto combatia com indignação as doutrinas do outro que Pombal fizera espalhar, atribuía a castigo de Deus o terramoto, citava profecias de freiras, condenava severamente os que levantaram abrigos nos campos, os que trabalhavam em levantar das ruínas da cidade, e recomendava procissões, penitências, e sobretudo recolhimento e meditação de seis dias nos exercícios de santo Inácio de Loyola. O Marquês de Pombal não era homem que permitisse semelhantes contrariedades. Mandou queimar o folheto pela mão do algoz, e desterrou Malagrida para Setúbal.  O jesuíta imaginava que, com o seu prestígio de taumaturgo, podia lutar contra a vontade do marquês, e parece, que de Setúbal escreveu mais uma carta ameaçadora e por isso Malagrida foi preso, transferido para o colégio da sua ordem em Lisboa, e no dia 11 de Janeiro de 1759, considerado réu de lesa-majestade, sendo transferido para as prisões do Estado. Sendo depois entregue à Inquisição, Malagrida foi condenado à pena de garrote e de fogueira, realizando-se o suplício no Rossio no auto de fé de 21 de Setembro de 1761. As suas cinzas foram espalhadas ao vento.
Auto de Fé

(…) que com baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta cidade  até à Praça do Rossio e que nela morra morte natural de garrote, e que, depois de morto, seja seu corpo queimado e reduzido a pó e cinza, para que dele e de sua sepultura não haja memória alguma” 

Primeira página do acordão dos inquisidores no processo contra Gabriel Malagrida. 

21 de Setembro de 1452: Nasce Girolamo Savonarola, reformador religioso e governante de Florença

No dia 23 de Maio de 1498, por ordem do papa Alexandre VI, é executado na forca e em seguida queimado Girolamo Savonarola. Considerado um dos espíritos mais complexos e poderosos do século XV italiano, Savonarola nasceu em Ferrara, em 21 de Setembro de 1452, numa família originária de Pádua. Intelectual muito talentoso devotou-se aos estudos, em especial à filosofia e à medicina.

A sua vida decorreu em grande parte longe da terra natal e muitas das suas peregrinações  permitiram que conhecesse diversas cidades da Itália, a sua acção e a sua energia de monge reformador e intérprete dos motivos contrastantes da cultura do Humanismo e do Renascimento, aconteceu principalmente na Florença de Lourenço o Magnífico e, depois da morte deste, na cidade em que por breve tempo se tornou república.
Em 1475, é acolhido no Convento dos Dominicanos onde a  sua visão teológica e das coisas mundanas se afirmou. Sentindo profundamente a perda de valores trazida pelo ideário do Renascimento começou a escrever os tratados filosóficos baseados em Aristóteles e em São Tomás de Aquino. Em 1481, foi designado pelo seu superior para pregar em Florença. Nesse centro do Renascimento, opôs-se rispidamente à vida pagã e frequentemente contra a imoralidade prevalecente em muitas classes da sociedade, em especial na corte dos Médici. As suas palavras exprimiam o desejo insistente de reforma da sociedade corrupta. Foi tomado ao mesmo tempo por um zelo intenso para com a salvação das almas, e estava pronto a arriscar tudo a fim combater as fraquezas humanas.

Após a derrota dos Médici, em 1494, Savonarola tornou-se o único líder de Florença e organizou uma república definida como "cristã e religiosa". Inimigo do renascimento artístico e cultural, estimulou a destruição de livros e obras-de-arte. Proibiu o jogo, a bebida, as festas e elevou a sodomia, até então punida com multa, a crime capital, punível com a pena de morte.

A sua ortodoxia religiosa não era apoiada pelo papa Alexandre VI, que chegou a emitir várias censuras contra Savonarola. O fanático líder florentino simplesmente ignorou-as e continuou o seu trabalho de limpeza moral, cujo ápice ocorreu em 1497, com a organização da famosa Fogueira das Vaidades: emissários do ditador recolheram por toda a cidade todos os objectos que pudessem caracterizar alguma forma de frouxidão moral, como espelhos, tabuleiros de jogos, cartas, vestidos luxuosos, livros sobre temas pagãos, cosméticos, perfumes, quadros mostrando figuras nuas e objectos semelhantes. De tudo isso resultou uma enorme pilha, incendiada em praça pública no centro de Florença.

A sua missão de intolerante reformador civil e religioso encontrou uma crescente hostilidade que se precipitou em tragédia quando Savonarola conspira para depor o papa Alexandre VI que imediatamente lançou o interdito contra Florença.
Os desmandos de Savonarola foram tantos que em 4 de Maio de 1497 explode a revolta popular, comandada por bandos de jovens. Numa atitude de provocação aberta, o povo reabriu tabernas e promoveu o jogo em locais públicos. A família Médici foi reconduzida ao poder enquanto Savonarola, preso e excomungado pelo papa, acabou sendo executado e queimado na Piazza della Signoria, junto com os seus colaboradores Domenico da Pescia e Silvestro Maruffi.

Erao dia  23 de Maio de 1498. As suas cinzas foram dispersas no rio Arno. A figura de Savonarola foi retratada pelo insigne pintor Fra Bartolomeo e durante longo tempo exerceu um estranho fascínio. Cogita-se que Leonardo da Vinci teria retratado Savonarola na sua famosa obra A Última Ceia no rosto de Judas Iscariotes
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Fontes: Opera Mundi
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Enforcamento e incineração do corpo de Savonarola na Piazza della Signoria (Anónimo, 1498, Museu Nacional de São Marcos)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Sociedade das Nações (SDN)

Com a entrada em vigor do Tratado de Versalhes, nasce oficialmente em 10 de Janeiro de 1920 a Sociedade das Nações, conhecida como SDN. A organização internacional, cuja sede foi estabelecida em Genebra, recebe 32 países como membros,  submetidos à autoridade de um conselho permanente. O papel central da SDN é o de assegurar a manutenção da paz no mundo. Após a Segunda Guerra Mundial ela é substituída pela ONU (Organização das Nações Unidas). 

A Sociedade das Nações representa um produto da Primeira Guerra Mundial, no sentido que o conflito acabou por convencer os governantes da necessidade de impedir outro conflito semelhante. As bases filosóficas residem nas visões de homens como o duque de Sully e Immanuel Kant, porém, os alicerces práticos ficam respaldados pelo recente crescimento de organizações formais internacionais, como a União Telegráfica Internacional (1865) e a União Postal Universal (1874). A Cruz Vermelha, as Conferências de Haia e o Tribunal Internacional de Haia consistiram também em importantes pedras fundamentais para a cooperação internacional. 

No término da Primeira Guerra Mundial, figuras proeminentes como Jan Smuts, Lord Robert Cecil e Leon Bourgeois defenderam uma Sociedade das Nações. O presidente norte-americano Woodrow Wilson incorporou a proposta nos seus famosos 14 pontos e  transformou-se em figura importante na criação da SDN durante a Conferência de Paz de Versalhes em 1919. A base institucional da SDN foi o Pacto (Covenant), incluído no Tratado de Versalhes. 

O Pacto era formado por 26 artigos. Os artigos 1º ao 7º diziam respeito à organização: uma assembleia geral composta de todos os países membros; um conselho composto pelas grandes potências, originalmente Grã-Bretanha, França, Itália, Japão e China, e mais tarde também a Alemanha e a URSS (paradoxalmente com excepção dos Estados Unidos, cujo Senado se recusou a ratificar o Tratado de Versalhes); e um secretariado. 

Tanto a assembleia geral quanto o conselho tinham poderes para discutir e dirimir qualquer matéria da esfera da SDN ou qualquer conflito que afectasse a paz mundial. Em ambos era exigida decisão unânime. Os artigos 8º e 9º reconheciam a necessidade de desarmamento. O art. 10º era uma tentativa de garantir a integridade territorial e independência política dos estados membros contra agressões externas. Os artigos 11º a 17º tratavam do estabelecimento de um Tribunal  Internacional Permanente de Justiça para arbitragem e conciliação. Os demais artigos tratavam de cooperação humanitária e emendas ao Pacto. 

A SDN rapidamente provou  a sua validade arbitrando a disputa entre a Finlândia e Suécia sobre as ilhas Aland (1920–21), garantindo a segurança da Albânia (1921), resgatando a Áustria do desastre económico, estabelecendo a divisão da Alta Silésia (1922) e evitando a eclosão da guerra nos Bálcãs entre Grécia e Bulgária (1925), além de acções contra a escravatura branca, ao tráfico de ópio e em outros campos. 

A pressão política, especialmente das grandes potências, levava a organização ao esfacelamento. A Polónia recusou a arbitragem da SDN no seu contencioso com a Lituânia; a Sociedade das Nações ficou sem acção quando a França ocupou o Ruhr alemão (1923) e a Itália ocupou Kérkira, Corfu, Grécia (1923). A omissão quanto à invasão da Manchúria pelo Japão infligiu um duro golpe ao prestígio da SDN, em especial porque foi seguido da retirada do Japão da organização (1933). Outro grande insucesso foi a inabilidade da SDN para pôr fim à Guerra do Chaco (1932–35) entre Bolívia e Paraguai. 

O fracasso da Conferência de Desarmamento e a retirada da Alemanha da (1933), bem como o ataque da Itália à Etiópia, acabaram por selar a inoperância da organização. Em 1936, Hitler remilitarizou a Renânia e denunciou o Tratado de Versalhes. Em 1938 anexou a Áustria. 

Diante das ameaças à paz internacional – a Guerra Civil espanhola, a Guerra do Japão contra a China (1937) e finalmente a ‘política de apaziguamento’ com Hitler em Munique (1938) – a SDN entrou em colapso. 

Em 1940 estava reduzida a um esqueleto. Por fim, em 1946, a Sociedade das Nações  deixou oficialmente de existir, transferindo os seus serviços e bens imóveis, especialmente o Palácio das Nações em Genebra às Nações Unidas, recém formada. 

Fontes: Opera Mundi
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A sede da SDN em Genebra

20 de Setembro de 1519: Fernão de Magalhães parte de Espanha, na primeira viagem de circum-navegação

Navegador português, ao serviço de Castela na época dos Descobrimentos, nasceu em 1480, provavelmente em Trás-os-Montes, segundo muitos autores em Sabrosa, município do distrito de Vila Real. Morreu bem longe dali, a mais de 15 000 quilómetros, na ilha de Mactan, no arquipélago das Filipinas, a 27 de abril de 1521. Sem honra nem glória, durante muito tempo com a sua memória esquecida. O seu diário de bordo e as suas anotações desapareceram depois da sua infeliz ingerência nas guerras tribais na ilha de Mactan, incidente que lhe tirou a vida, às mãos do régulo nativo Lapu-Lapu. Acabava assim um périplo que cobrira dois longos oceanos e um sem número de infortúnios, problemas, mortes e revoltas entre os seus subordinados. Chegar às Filipinas foi complicado, quase dois anos depois de ter zarpado de Sanlúcar de Barrameda (Espanha), a 20 de setembro de 1519. Capitaneava uma armada de cinco navios (Trinidad, San Antonio, Concepción, Victoria e Santiago), à frente de 234 homens. Uma armada que se resumiria, no fim da viagem de circum-navegação completa ao mundo, a uma embarcação (Victoria), outro comandante, Sebastião Del Cano, e a apenas dezoito homens (incluindo Del Cano). Mas esquecidos de Magalhães, com exceção de um italiano que seguiu na armada de 1519, António Pigafetta, que nos deixou relatórios impressionantes mas autênticos das jornadas intercontinentais do navegador português e dos seus últimos dias.
Tudo começou em 1517, quando aquele nobre português, depois de uma carreira de subalternidade, sem brilho nem grandes feitos pessoais, ao serviço de D. Manuel, na Ásia como na África, ofereceu as suas armas e préstimos ao rei de Espanha, Carlos V. Apesar de no anonimato de um subordinado, Magalhães ganhou vasta experiência militar e náutica nas suas andanças pelo Oriente. Em 1505, depois de ter sido educado na corte portuguesa, partiu para a Índia na poderosa armada de D. Francisco de Almeida, 1.º vice-rei da Índia (1505-1509), a qual tinha como missão afastar as frotas turcas dos mares da região o que se conseguiu, até 1538. Depois da partida do vice-rei, em 1509, sempre animado pelo forte desejo de conhecer as terras a Oriente (percorreu vastos territórios do subcontinente indiano e da África oriental) e principalmente as terras das Especiarias (Molucas, Sunda, Celebes), acompanhou D. Diogo Lopes Sequeira na malograda expedição (naufrágio) a Malaca, ainda naquele ano de 1509. Permaneceu no Oriente até 1513, tendo-se tornado amigo do feitor das Molucas, Francisco Serrão, junto do qual apurou os seus conhecimentos acerca dessas ilhas, das suas famosas especiarias e das rotas adjacentes. Na sua estada no Extremo Oriente, participou ainda na tomada de Malaca por D. Afonso de Albuquerque, em 1511, um ano depois de ter sido promovido a capitão. Em 1513 regressou a Portugal, tendo sido destacado para Marrocos, onde participou em várias expedições, numa das quais, a Azamor, em 1514, foi ferido num joelho, regressando a Lisboa. Atrás de si vinha uma fama menos consentânea com a sua posição, acusado de ganância e poucos escrúpulos. Não se sabe se por tal motivo ou se por outro que desconhecemos, o certo é que D. Manuel I lhe recusou um aumento de 100 reais na tença anual que lhe pagava.
Com uma imagem não muito boa junto do monarca português, afigurava-se difícil a sua anuência para outro projeto que muito acalentava: o de atingir as Molucas por Ocidente, solução que considerava mais rentável e segura que a rota do oriente via Índia-Malaca, repleta de muçulmanos e piratas hostis aos Portugueses e seus interesses. Depois de várias recusas de D. Manuel I (também de uma nau para a Índia), Magalhães dirigiu-se a Sevilha para "vender" o seu projeto ao rei de Espanha, Carlos V. Foi acompanhado de Rui Faleiro, português. A Carlos V propôs Magalhães não apenas atingir as Molucas por Ocidente mas acima de tudo provar que aquelas ilhas não estavam dentro da área de jurisdição portuguesa defendida no Tratado de Tordesilhas (1494) mas sim em mares "espanhóis". Além disso, a viagem decorreria sempre em águas espanholas. Apesar de algumas reticências, Carlos V aceitou o projeto, confiando a Magalhães uma frota de cinco navios, 234 homens e 480 toneladas em navegação. Com muitas peripécias e uma rutura de relações com Faleiro, a armada de Magalhães saiu de Sanlúcar de Barrameda a 20 setembro de 1519, depois de lhe nascer o primeiro filho e de sua mulher esperar outro, que o altivo navegador nunca conheceu. 

Sua mulher era D. Beatriz Barbosa, filha de um amigo português de Sevilha, Diogo Barbosa, antigo companheiro no Oriente, muito influente naquela cidade espanhola, pai de Duarte Barbosa, que rumou com Fernão na fatídica viagem, que o seria também para ele (Duarte foi morto em Cebu, Filipinas, uns dias antes de Magalhães). Beatriz morreria antes da chegada dos 18 cadáveres vivos em 1522, sobreviventes da viagem de Magalhães. Tentou-se o seu regresso a Portugal, com aumentos de tença, entretanto, mas Magalhães recusou sempre.

A viagem de circum-navegação começou bem, atingiu rapidamente a América do Sul (novembro), depois de escala nas Canárias. Em fevereiro de 1520 passaram no Rio da Prata, chegando a S. Julián, na Patagónia, mais a sul, em março. Começariam aqui os maiores problemas da viagem, ou melhor, acabaria a bonança da mesma. Seis meses ficaram ali retidos, para passar o inverno. Mas estalaram revoltas e motins, perdendo-se ainda Santiago. Depois vem a procura do estreito, que receberia o nome de Magalhães, no extremo sul da América, região de "mau navegar". Passado este (38 dias) e o desaparecimento de mais uma nau (provando-se que uma rota pelo estreito seria péssima), após motins e tempestades, atingiu-se o Pacífico, assim batizado por Magalhães, pelas suas calmarias. Demorou quatro longos meses a atravessar, com muitas mortes (escorbuto), fome e as célebres "nebulosas de Magalhães", diminuindo-se cada vez mais a tripulação. Depois, chegou-se às ilhas Marianas (ou dos "Ladrões"), depois veio a emboscada de Lapu-Lapu, em Mactan, nas Filipinas. Aí, sobreveio a morte, de um navegador português ao serviço de Espanha

Fontes: Fernão de Magalhães. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012
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Fernão de Magalhães celebrado em selos